segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Ditos dos Padres do deserto


1. Perguntaram ao Pai Ammonas: «Qual é o caminho estreito e apertado?» (Mt 7,14). Ele respondeu: «O caminho estreito e apertado é este, controlar seus pensamentos e despojar-se de sua própria vontade por amor de Deus». Também isto é o significado da sentença: «Senhor, eis que deixamos tudo e te seguimos.» (Mt 19, 27)

2. Diziam dele que havia como que uma depressão escavada em seu peito, pelas lágrimas que caíram de seus olhos durante toda sua vida, enquanto ele fazia seu trabalho manual. Quando Pai Poemen viu que ele estava morto, disse chorando: «Verdadeiramente você é abençoado, Pai Arsenius, pois você chorou por si mesmo nesse mundo! Quem não chora por si mesmo aqui embaixo, chorará eternamente então; por isso é impossível não chorar, voluntariamente ou quando obrigado pelo sofrimento.» (i. e. o sofrimento derradeiro no inferno).

3. Também era dito dele (Pai Arsenius) que nas noites de sábado, preparando-se para a glória do domingo, ele virava-se de costas para o sol e elevava suas mãos em oração em direção ao céu, até que o sol novamente brilhasse em sua face. Então ele se sentava.

4. Dizia-se do Pai Ammoes que quando ele ia à igreja, não permitia que seu discípulo caminhasse ao seu lado mas a uma certa distância; e se esse último viesse lhe perguntar sobre seus pensamentos, ele se afastava dele logo após responder-lhe: «É por receio que, após tão edificantes palavras, sobrevenham conversas irrelevantes, que eu não permito que caminhes comigo.»

5. Foi dito de Pai Ammoes, que ele possuía cinqüenta medidas de trigo para seu uso e as colocara para fora, ao sol. Antes que elas estivessem devidamente secas, ele viu algo naquele lugar que lhe pareceu perigoso, então disse aos seus empregados: «Vamo-nos embora desse lugar.» Porém, eles pareceram aflitos com isso. Vendo seu desalento ele lhes disse: «É por causa dos pães que vocês estão tão tristes? Na verdade, tenho visto monges fugindo, deixando suas celas lavadas e também seus pergaminhos e eles nem fecharam as janelas, mas deixaram-nas abertas.»

6. Pai Abraão disse de um homem de Scete que era um escriba e não comia pão. Um irmão veio a ele para copiar um livro. O velho homem cujo espírito estava absorto em contemplação, escreveu, porém omitindo algumas frases e sem pontuação. O irmão, tomando o livro e desejando pontuá-lo, notou que faltavam palavras. Então disse ao ancião: «Pai, faltam algumas palavras.» O ancião disse a ele: «Vá e pratique primeiro o que está escrito, depois volte e eu escreverei o restante.»
7. Havia nas celas um velho homem chamado Apollo. Se aparecia alguém chamando-o para ajudar em alguma tarefa, ele ia alegremente, dizendo: «Vou trabalhar com Cristo hoje, pela salvação de minha alma, pois esta é a recompensa que Ele dá.»

8. Pai Doulas, discípulo de Pai Bessarion disse: «Um dia, quando estávamos caminhando ao longo da praia, eu estava sedento e disse ao Pai Bessarion, 'Pai, estou com sede'. Ele rezou e disse-me, 'Beba um pouco da água do mar.' A água estava doce e eu bebi. Cheguei a pegar um pouco numa garrafa de couro, pois tive medo de ficar sedento mais tarde. Vendo isto, o velho homem perguntou-me porque eu estava levando água. Eu disse a ele: 'perdoe-me, é por medo de ficar com sede mais tarde.' E o ancião disse: 'Deus está aqui, Deus está em todo lugar'.»

9. Um irmão perguntou ao Pai Poemen desta maneira: «Meus pensamentos me atormentam, fazendo com que eu deixe de lado meus pecados e me preocupe com as faltas de meus irmãos.» O ancião contou-lhe a seguinte estória sobre Pai Dioscurus (o monge): «Na sua cela ele chorava por si mesmo, enquanto seu discípulo se sentava eu outra cela. Quando este último veio ver o ancião perguntou-lhe: 'Pai, por que choras?' 'Estou chorando pelos meus pecados', respondeu-lhe o velho homem. Ao que o discípulo disse: 'Você não tem nenhum pecado, Pai.' O ancião replicou, 'É verdade, meu filho, se eu pudesse ver meus pecados, três ou quatro homens não seriam suficientes para chorar por eles'.»

10. Isto é o que disse Pai Daniel, o Faranita: «Nosso Pai Arsenius nos contou sobre um habitante de Scetis, de vida digna e fé simples; pela sua ingenuidade, ele foi enganado e disse, 'O pão que recebemos não é verdadeiramente o Corpo de Cristo, mas um símbolo'. Dois anciãos souberam que ele dissera aquilo, conhecendo seu modo de vida correto acreditaram que ele não falara por malícia, mas por simplicidade. Então, vieram a ele e disseram: '"Pai, ouvimos da parte de alguém uma proposição contrária à fé, que disse que o pão que recebemos não é verdadeiramente o corpo de Cristo, mas um símbolo.' O ancião disse: 'fui eu quem disse isso.' Então os outros dois o exortaram dizendo: 'Não mantenha essa crença, Pai, mas aquela em conformidade com o que a igreja Católica nos deu. Acreditamos, de nossa parte, que o pão por si mesmo é o Corpo de Cristo, como no início, Deus formou o homem à sua imagem, tomando do pó da terra, sem que ninguém possa dizer que ele não é a imagem de Deus, mesmo que não pareça. Do mesmo modo, com o pão do qual ele disse, 'este é Meu Corpo'. Assim nós cremos que é verdadeiramente o Corpo de Cristo.' O ancião disse-lhes: 'Enquanto eu não for convencido pela coisa em si, não estarei completamente convicto.' Então eles disseram: 'Vamos rezar a Deus sobre este mistério por toda a semana e acreditamos que Deus vai nos revelar isto.' O ancião ouviu isso com alegria e rezou nessas palavras: 'Senhor, vós sabeis que não é por malícia que eu não creio, e, de maneira que eu não erre por ignorância, revele isto a mim, Senhor Jesus Cristo.' Os dois homens voltaram a suas celas e rezaram também a Deus, dizendo: 'Senhor Jesus Cristo, revele esse mistério a esse homem de modo que ele creia e não perca sua recompensa.' Deus ouviu suas preces. Ao final da semana eles vieram à igreja no domingo e se sentaram todos os três no mesmo tapete, o ancião no meio. Em seguida seus olhos se abriram e quando o pão foi colocado na mesa sagrada, aparecia-lhes uma criança pequena, sozinha. E quando o sacerdote estendeu a mão para partir o pão, viram um anjo descer do céu com uma espada e servir o sangue da criança no cálice. Quando o padre partiu o pão em pedacinhos, o anjo também cortou a criança em pedaços. Quando se aproximaram para receber os sagrados elementos o ancião sozinho recebeu um pedaço da carne sangrenta. Vendo isto, ficou com medo e gritou: 'Senhor, eu creio que isto é Vosso Corpo e este cálice Vosso Sangue!' Imediatamente a carne que ele segurava em suas mãos se tornou pão, de acordo com o mistério e ele o tomou dando graças a Deus. Em seguida os dois homens lhe disseram: 'Deus conhece a natureza humana e sabe que o homem não pode comer carne crua e é por isso que ele mudou Seu Corpo em pão e seu Sangue em vinho, para aqueles que o recebem na fé.' Em seguida, deram graças a Deus pelo ancião, porque Ele não permitiu que o mesmo perdesse a recompensa pelo seu trabalho. Então, todos três retornaram com alegria para suas celas.»

11. Dizia-se que Pai Helladius passou vinte anos em sua cela, sem sequer elevar os olhos para ver o telhado da Igreja.

12. Pai Epifânio acrescentou: «Um homem que recebe algo de outro por causa de sua pobreza ou sua necessidade tem aí sua recompensa e porque ele se envergonha, quando ele paga, ele o faz em segredo. Mas o oposto faz Deus; Ele recebe em segredo, mas paga na presença dos anjos, dos arcanjos e dos justos.»

13. Era dito do Pai Agathon que alguns monges vieram procurá-lo, tendo ouvido falar de seu grande discernimento. Desejando ver se ele perdia a paciência disseram-lhe: «Você não é aquele do qual dizem ser um grande fornicador e um homem orgulhoso?» «Sim, é verdade», ele respondeu. Eles continuaram: «Você não é aquele Agathon que está sempre dizendo bobagens?» «Sou eu.» Novamente, eles disseram: «"Você não é Agathon, o herético?» Ao que ele replicou: «Eu não sou um herético.» Então eles perguntaram-lhe: «Diga-nos: porque você aceitou tudo que atiramos sobre você, mas repudiou este último insulto.» Ele replicou: «As primeiras acusações tomei para mim, pois é bom para minha alma. Mas heresia é separação de Deus. Vejam, eu nada tenho para ser separado de Deus.» A este dito, eles ficaram surpresos pelo seu discernimento e retornaram, edificados.

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