Para conhecer a vida de
Santo Antão tem-se como texto fundamental a obra de Santo Atanásio. Fora dela
citam-se por vezes outras fontes, mas que não dão as mesmas garantias de
autenticidade. Com mais ou menos segurança se lhes atribuem algumas cartas,
ditadas por ele em todo caso, pois não sabia grego. Menor segurança reveste a
atribuição que de alguns apoftegmas se lhe faz tradicionalmente. Fora de dúvida
estão, no entanto, as notícias contidas na carta que, por ocasião da morte de
Santo Antão, escreveu ao amigo deste, São Serapião, bispo de Thmuis (ob. entre
339 e 353), como igualmente a menção do historiador Sozomeno (+ 439?) e o
elogio de São Gregório Nazianzeno (+ 389/390). Valem também as menções na
literatura pacomiana, ainda que por vezes adornadas com um traço bem
legendário. As datas da vida de Santo Antão são inseguras. A mais certa é a de
sua morte, no ano 356. Segundo a “Vida” (89,3), tinha nesta data cento e cinco
anos de idade. Ainda que semelhante idade, certamente não comum, não seja de
todo improvável na vida de um homem, pode, no entanto, estar excedida em alguns
anos. Sendo assim, Santo Antão teria nascido entre 250 e 260. Como lugar de
origem, costuma-se dar a aldeia de Coma (Kiman-el-Arus), no Egito médio, perto
da antiga Heracleópolis. Seus pais eram camponeses abastados. Além de Antão,
tinham uma filha. À morte dos pais, o jovem, de uns 18 a 20 anos, vendeu a
propriedade, por amor ao Evangelho, distribuiu o dinheiro aos pobres,
reservando apenas algo para sua irmã, menor que ele. Posteriormente distribuiu
também isso, consagrando sua irmã ao estado de virgem cristã. Retirou-se ele à
vida solitária, perto de sua aldeia natal, segundo o costume da época. É a
etapa de sua formação monástica, de sua apaixonada dedicação à Escritura e à
oração; é também o período de seus primeiros encontros com o demônio. Depois de
um certo tempo, buscando uma confrontação mais direta com o demônio, vai viver
num cemitério abandonado, encerrando-se um mausoléu. Ali sofre ataques
violentíssimos dos demônios, mas sem se deixar amedrontar, persevera em seu
propósito. Assim chega aos 35 anos. Empreende então a separação decisiva: vai
para o deserto. A “Vida” assinala esse passo como algo totalmente insólito
nessa época (11,1). Santo Antão cruza o Nilo e se interna na montanha, onde
ocupa um fortim abandonado. Ali passou quase vinte anos (14,1), não se deixando
ver por ninguém, entregue absolutamente só à prática da vida ascética.
Pressionado pelos que queriam imitar sua vida, Santo Antão abandona a solidão e
se converte em pai e mestre de monges. Conta cinqüenta e cinco anos, e junto ao
dom da paternidade espiritual, Deus lhe concede diversos outros carismas. Em
torno dele forma-se uma pequena colônia de ascetas (44). Nesta etapa conta-se
também a descida de Santo Antão e de seus discípulos a Alexandria, por ocasião
da perseguição de Maximino Daia (311), para confortarem os mártires de Cristo
ou ter a graça de sofrerem eles próprios o martírio. Voltando à solidão,
encontrou-a povoada demais para seus desejos. Fugindo então à celebridade,
Santo Antão chega ao que a “Vida” chama “Montanha interior” (a “Montanha”
exterior, ou Pispir (Deir-el-Mnemonn) havia sido até então sua residência, e
nela permanece a colônia de seus discípulos), o Monte Colzim, perto do Mar
Vermelho. Apesar de tudo, de vez em quando visita seus irmãos, e estes vão a
ele. A “Vida” coloca neste tempo a maioria dos prodígios que lhe atribui. A
pedido dos bispos e dos cristãos, empreende segunda vez o caminho de
Alexandria, para prestar seu apoio à verdadeira fé na luta contra o arianismo.
Os últimos anos de sua vida passou em companhia de dois discípulos. Vaticina
sua morte, faz legado de suas pobres roupas e roga a seus acompanhantes que não
revelem a ninguém o lugar de sua sepultura. Gratificado com uma última visão de
Deus e de seus santos, morreu em grande paz. Ainda que a “Vida” diga
explicitamente que Santo Antão não foi o primeiro anacoreta (3,3-5; 4,1-5),
sustentando, por outro lado, que foi o primeiro a retirar-se ao deserto do
Egito (11,1), e ainda que, além disso , seja muito difícil assinalar origens e
iniciadores precisos num movimento humano tão complexo como o monástico,
contudo, a figura se sobressai em forma tão extraordinária, que com razão é ele
considerado pai da vida monástica e, especialmente, como modelo perfeito da
vida solitária. Sua fama já em vida, acrescentada depois de sua morte sobretudo
através das páginas da “Vida”, é inteiramente justa. Ao celebrar sua festa, de
acordo com muito antigas tradições, a 17 de janeiro, os cristãos reconhecemos o
poder de Deus entre os homens, a força de sua sabedoria ao deixar-nos um
exemplo em homem tão humilde, o dom de seu Espírito multiforme com a discrição
e o alento fraterno do grande ancião.
Capuchinho Eremita
Um blog voltado para a vida religiosa, eremítica e espiritualidade católica.
segunda-feira, 22 de outubro de 2018
quinta-feira, 11 de outubro de 2018
Os Religiosos de clausura
O que fazem os religiosos de clausura?
Os contemplativos dão um testemunho poderoso e silencioso, que só os anjos vêem.
Meditam sobre as coisas de Deus;oram em conjunto em diversas horas do dia, conforme a rotina da comunidade;trabalham na limpeza e manutenção do mosteiro;fazem penitência, conforme a disponibilidade de cada um;realizam trabalhos manuais para obter verbas e manter o mosteiro;estudam.
Perguntinha pra você: a sua mente está voltada para Deus em todas as suas atividades, e você reza tanto quanto gostaria? Pratica atos de mortificação (renúncias, sacrifícios) com freqüência?
Pois é…
Os irmãos e irmãs de clausura nos compensam naquilo que falta a muitos de nós: oração e penitência. Eles adoram, meditam, se penitenciam e oram para sustentar aqueles que estão no mundo. A solidão permite uma vida de oração mais intensa, que é fonte de graças e santidade para toda a Igreja.
segunda-feira, 19 de março de 2018
São Charbel Makhlouf, Eremita
São Charbel Makhluf foi um eremita libanês do século XIX, elevado à honra dos altares em 1965 e canonizado no ano de 1977, pelo Papa Paulo VI. O nome Charbel, de origem sírio-libanesa, significa “a história de Deus” e, em português, pela adaptação latina, também pode ser substituído por Sarbélio. Mesmo levando uma vida escondida, este santo monge ficou famoso por seu corpo incorrupto e por seus milagres extraordinários. Pouco depois de sua morte, em 1898, se cumpriria a profecia de seu superior, que, ao assinar a sua breve ata de sepultamento, previu que mais se escreveria a respeito dele depois de morto do que vivo.
De fato, sepultado em uma vala comum, como todos os maronitas, de seu túmulo começaram a sair luzes extraordinárias, que impressionaram quem vivia próximo ao cemitério. Aberta a sua cova, todos ficaram maravilhados com o seu corpo, que não só ficara intacto, como começava a transpirar sangue e água – à semelhança de Nosso Senhor, de cujo lado aberto na Cruz também jorraram sangue e água. Por 70 anos, o túmulo de São Charbel ficou completamente encharcado, exalando um odor muito agradável e confirmando a sua santidade.
Nascido Youssef Antoun Makhlouf, em 1828, São Charbel era o quinto de seus irmãos. Órfão desde criança – o pai morreu servindo aos soldados otomanos –, o pequeno José foi criado por um tio. Mandado para o campo, para cuidar do rebanho da família, o menino passava o tempo em uma gruta, na qual se recolhia para rezar. O lugar, chamado ironicamente por seus colegas de “a gruta do santo”, acabou por cumprir profeticamente o seu destino. Com 23 anos, José enfrenta a resistência da família – de sua mãe, que lhe era muito apegada, e de seu tio, que necessitava de braços para o campo – e sai escondido de casa, decidido e disposto a fazer-se monge.
No mosteiro, em seu primeiro ano de noviciado, o rapaz vê-se em uma situação difícil. À época, o Líbano trabalhava arduamente na exportação de seda e os monges do lugar em que ele estava tinham muito contato com os camponeses da região, pois os ajudavam na produção da fibra. Trabalhando em sua ocupação, o irmão Charbel atrai o olhar de uma moça, que o tenta seduzir, jogando nele alguns bichos-da-seda. Ignorando a jovem, ele se retira dali e, na mesma noite, foge do mosteiro, que estava sendo ocasião de perigo para a sua alma.
Já no mosteiro de São Maron de Annaya, o irmão Charbel começa o seu segundo ano de noviciado, quando sua mãe, Brígida, decide visitá-lo. Em uma atitude que pode parecer dura, Charbel escolhe não ver sua mãe, limitando-se a conversar com ela atrás da porta. Instado para mostrar-lhe o rosto, ele responde, resolutamente: “Nós nos veremos no Céu”. Para entender o ato de São Charbel, é preciso lembrar a sua opção radical pela vida monástica reclusa. Ele estava convencido de que um monge que mantinha contato com seus parentes depois da profissão de seus votos deveria recomeçar o noviciado.
Uma lição valiosa que esse acontecimento ensina é a do amor verdadeiro aos pais, que tem como finalidade a sua salvação eterna. São Máximo, o Confessor, ensina que existem cinco tipos de amor, sendo três “passionais”, um “indiferente” e outro “louvável”: os três primeiros são aquele buscado por puro prazer, outro baseado no “ter” e outro ainda, na vaidade; o amor neutro é aquele natural, “como os pais que amam os filhos e vice-versa”; o quinto, por fim, é o amor por Deus, que deve enformar todas as virtudes e também afeições naturais, inclusive aos pais e filhos. Porque, se é verdade que o amor “por natureza” é “indiferente”, pode também desembocar em um apego desordenado. O amor verdadeiro, ao contrário, deseja o Céu um para o outro, assim como São Charbel desejou para sua mãe e assim como Santa Teresinha do Menino Jesus, que, tendo aprendido sobre as belezas do Céu, pediu para Deus que sua mãe morresse logo, para que ela se encontrasse com Ele.
De fato, o desapego dos pais e a promessa de recompensa de Charbel à sua mãe – “Nós nos veremos no Céu” – são realidades que ecoam do próprio Evangelho: “Quem ama pai ou mãe mais do que a mim, não é digno de mim”; “Todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou campos, por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá como herança a vida eterna”.
Na vida em comunidade, Charbel tornou-se um notável modelo de submissão e abnegação da própria vontade. Quando o superior pedia a seus confrades uma obediência severa, os seus companheiros retrucavam, jocosamente: “Pensa o senhor, por acaso, que sou o irmão Charbel?”
Por decisão do superior e de seus confrades, foi admitido às sagradas Ordens e, após cumprir os estudos, recebeu a ordenação presbiteral em 1859.
Começa, então, um novo capítulo de sua vida: o agora padre Charbel que se preparava com piedade, devoção e muito zelo para a celebração da Santa Missa. Ele, que era um homem extremamente despojado, tinha peças de vestuário e sapatos que usava especificamente para encontrar com Nosso Senhor no culto eucarístico. “Charbel celebrava o Santo Sacrifício com a máxima dignidade e com uma fé tão viva, que, com frequência, durante a Consagração, as lágrimas corriam-lhe dos olhos escuros e profundos, os quais eram como duas janelas abertas para o Céu. E, na contemplação, ficava de tal modo absorto que não prestava atenção alguma a eventuais ruídos ou rumores”.
Certa vez, durante a sagrada liturgia, um acólito viu que o santo chorava durante a consagração e que algumas lágrimas caíam no corporal. À hora da purificação dos objetos sagrados, aquele corporal molhado foi causa de grande inquietação para Charbel, que pensou que havia deixado cair o preciosíssimo sangue de Cristo. Preocupado, o padre apresentou o corporal ao seu superior, pedindo perdão por aquilo que pensara ser um ato de negligência sua.
Durante muitos anos, o padre Charbel permaneceu no seio da comunidade monástica, mas, em seu coração, não havia morrido o desejo de tornar-se eremita, vivendo completamente afastado do mundo e dedicando-se inteiramente a Deus. O seu anseio, no entanto, era sempre negado por seus superiores.
Até que, um dia, tendo voltado tarde de seu trabalho no campo, ele pediu ao irmão dispenseiro – que guarda os mantimentos do mosteiro e os distribui aos confrades – que pusesse óleo em sua lamparina, a fim de rezar o Ofício em sua cela. O monge, reprovando Charbel por não chegar mais cedo, deixou-o, por penitência, sem óleo. O monge, então, retirou-se obedientemente para o seu quarto. Um confrade mais jovem se ofereceu para ajudar São Charbel, mas, por brincadeira, colocou água em sua lamparina, ao invés de óleo. Milagrosamente, todavia, a lamparina se acendeu e Charbel pôde rezar o seu Ofício.
Vendo esse milagre, o seu superior se convenceu de que o Senhor realmente o chamava o para a vida eremítica. Permaneceu, então, recolhido no eremitério de São Pedro e São Paulo, até o fim de sua vida. Foi durante este período, nos intervalos em que trabalhava nas aldeias vizinhas, que se espalhou na região a sua fama de taumaturgo.
Impressionante era a sua concentração nos momentos de oração, que pode ser ilustrada com a história seguinte:
“Num dia de tempestade, um raio derrubou parte da ala meridional da ermida, deitou por terra uma parede da vinha e queimou, na capela, as toalhas do altar, enquanto o santo monge ali se encontrava, em oração. Dois ermitães acorreram ao local, e o viram na mais apaziguante tranquilidade.
— Padre Charbel, por que não se moveu para apagar o fogo?
— Caro irmão, como poderia fazê-lo? Pois logo depois de atear-se, o fogo se extinguiu…
De fato, como o incêndio fora rapidíssimo, ele julgara mais importante continuar sua oração, sem se perturbar.”
No dia 16 de dezembro, enquanto celebrava o Santo Sacrifício, o padre Charbel começou a passar mal. Tendo agonizado por oito dias, este santo monge entregou a sua vida a Deus oito dias depois, exatamente na vigília de Natal.
A sua vida extraordinária nos incita, sobretudo, à renúncia do mundo e ao cultivo da vida espiritual, baseada principalmente na devoção à Santíssima Virgem e à Santíssima Eucaristia. A São Charbel Makhlouf se aplicam com perfeição as palavras do salmista: “O justo crescerá como a palmeira, como o cedro do Líbano se elevará.”
domingo, 7 de janeiro de 2018
Os 30 graus da Escada de São João Clímaco
1º
degrau: a renúncia à vida do mundo;
2º
degrau: renúncia aos afetos terrenos;
3º
degrau: fuga do mundo;
4º
degrau: bem-aventurada e sempre louvável obediência;
5º
degrau: verdadeira e sincera penitência;
6º
degrau: pensamento da morte e dom de lágrimas;
7º
degrau: a tristeza que produz alegria;
8º
degrau: a doçura que triunfa a cólera;
9º
degrau: esquecimento das injúrias;
10º
degrau: fugir da maledicência, que seca a virtude da caridade;
11º
degrau: amor ao silêncio, porque falar muito leva à vanglória;
12º
degrau: fugir da mentira, que é ato de hipocrisia;
13º
degrau: combater o enfado e a preguiça, uma vez que esta última destrói por si
só todas as virtudes;
14º
degrau: praticar a temperança, porque comer guloseimas é hipocrisia do
estômago;
15º
degrau: amor à castidade;
16º
degrau: viver a pobreza, oposta à avareza;
17º
degrau: não deixar o coração endurecer (isso causa a morte da alma);
18º
degrau: sono e do canto público dos salmos;
19º
degrau: fazer vigílias;
20º
degrau: timidez pueril;
21º
degrau: não praticar a vanglória;
22º
degrau: fugir do orgulho;
23º
degrau: fugir da blasfêmia;
24º
degrau: doçura da alma, simplicidade;
25º
degrau: humildade;
26º
degrau: discernimento nos pensamentos;
27º
degrau: vida interior e paz de alma;
28º
degrau: oração, que é santa e fecunda fonte de virtudes;
29º
degrau: recolhimento do espírito e repouso do corpo que lhe são necessários;
30º
degrau: fé, esperança e caridade.
terça-feira, 26 de dezembro de 2017
Frases de São João Clímaco
1.
"O verdadeiro monge: o olhar da alma, imóvel; o sentido corporal,
inabalável... uma luz que não se apaga aos olhos do coração".
2.
"Aqueles cujo espírito aprendeu a orar, na verdade falam ao Senhor face a
face, como os que falam ao ouvido do imperador; aqueles cuja boca ora, fazem
lembrar os que se prostram diante do imperador, na presença de toda corte. Os
que vivem no mundo, são os que dirigem sua súplica ao imperador, na balbúrdia
de todo povo".
3.
"Que vossa oração ignore toda multiplicidade: uma única palavra bastou ao
Publicano e ao filho pródigo para obter o perdão".
4.
"O grande herói da sublime e perfeita oração diz: 'prefiro dizer cinco palavras
com a minha inteligência... '(1 Cor 14,19). As crianças pequenas não tem ideia disso: imperfeito como somos, com a qualidade também nos é necessária a
quantidade. A segunda consegue para nós a primeira..."
5.
"A solidão do corpo é a ciência e a paz da conduta e dos sentidos; a
solidão da alma, a ciência dos pensamentos e um espírito inviolável. O amigo da
solidão é um espírito de sentinela, valente e inflexível, sem sono, à porta do
coração, para derrubar e matar os que se aproximam".
6.
"O hesicasta é quem aspira a limitar o incorporal numa morada de carne. O
gato aspira o ratinho; o espírito do hesicasta espreita o ratinho
invisível".
7.
"O monge tem necessidade de grande vigilância e de um espírito isento de
agitação. O cenobita tem freqüentemente o apoio de um irmão; o monge, o de um
anjo".
8.
"Fechai a porta da cela a vosso corpo, a porta dos lábios às palavras, a
porta interior aos sentido".
9.
"A obra da solidão (hesychia) é uma despreocupação total por todas as
coisas, razoáveis ou não".
10.
"Basta um fio de cabelo para embaralhar a vista; basta uma simples
preocupação para dissipar a solidão (hesychia), pois a solidão é despojamento
dos pensamentos e renúncia às preocupações razoáveis".
11.
"Quem possui verdadeiramente a paz, não se preocupa mais com o próprio
corpo".
12.
"Quem quer apresentar a Deus um espírito purificado, e se deixa perturbar
pelas preocupações, assemelha-se a alguém que tivesse entravado fortemente as
pernas e pretendesse correr".
13.
"É grande a utilidade da leitura para esclarecer e recolher o
espírito".
14.
"Procurai vossas luzes sobre a ciência da santidade, mais nos trabalhos do
que nos livros".
16.
"Quem se sente diante de Deus, do fundo do coração, será como uma coluna
imóvel durante a oração".
17.
"O monge que vela é um pescador de pensamentos; sabe distingui-los sem
dificuldade, na calma da noite, e apanhá-los".
18.
"Nada de rebuscamento nas palavras de vossa oração: quantas vezes os
balbucios simples e monótonos das crianças fazem o pai ceder!"
19.
"Não vos entregueis a longos discursos, para que vosso espírito não se
dissipe na procura das palavras. Uma única palavra do Publicano comoveu a
misericórdia de Deus; uma única palavra cheia de fé salvou o
Ladrão".
20.
"A prolixidade na oração freqüentemente enche o espírito de imagens e o
dissipa, enquanto muitas vezes o efeito de uma única palavra (monologia) é
recolhê-lo".
21.
"Senti-vos consolados e enternecidos por uma palavra da oração? Parai
nessa palavra; isso quer dizer que o nosso anjo da guarda então ora
conosco".
22.
"Nada de segurança demais, mesmo tento conseguido a pureza; mas, sim, uma
grande humildade, e sentireis então maior confiança".
23.
"Quando vos tiverdes revestido da doçura da ausência de ira, não vos será
mais muito custoso libertar vosso espírito do cativeiro".
24.
"Trabalhai para elevar o vosso pensamento, ou melhor, para recolhê-lo nas
palavras de vossa oração; se a fraqueza da inância o faz cair,
levantai-o".
25.
"O primeiro degrau da oração consiste em expulsar, por meio de um
pensamento (ou uma palavra) simples e fixo (monologicamente), as sugestões, no
momento mesmo em que se manifestam. O segundo, em conservar nosso pensamento
unicamente no que dizemos e pensamos".
26.
"Ressuscitados do amor pelo mundo e pelos prazeres, afastai as
preocupações, despojai-vos dos pensamentos, renunciai ao corpo, uma vez que a
oração nada mais é que um exílio do mundo visível e invisível".
27.
"Não se aprende a ver; é um efeito da natureza. A beleza da oração também
não se aprende através do ensinamento. Ela tem em si própria o seu mestre; Deus
'que ensina ao homem o saber' (Sl 94,10) dá a oração e abençoa os anos dos
justos".
quinta-feira, 14 de dezembro de 2017
Quem foi São João Clímaco?
São
João Clímaco nasceu em 580. Clímaco foi um monge do Monte Sinai, e deve o seu
cognome a um livro seu, Escada (Klímax - Clímaco). A Escada é um resumo da vida
espiritual, concebida para os solitários e contemplativos. Para Clímaco, a
oração é a mais alta expressão da vida solitária; ela se desenvolve pela
eliminação das imagens e dos pensamentos. Daí a necessidade da 'monologia',
isto é, a invocação curta, de uma só palavra, incansavelmente repetida, que
paralisa a dispersão do espírito. Essa repetição deve assimilar-se com a respiração.
João
Clímaco faleceu por volta do ano 650.
O
nome de São João Clímaco é uma alusão à palavra "klímax', que em grego
significa escada. São João decidiu adotar este nome em virtude do livro escrito
por ele mesmo, intitulado Escada para o Paraíso.
Nesta obra ele explica que existem 30 degraus a serem
galgados para que possamos atingir a perfeição moral. Este livro foi um grande
sucesso na época e chegou até mesmo a influenciar monges e outros religiosos cm
sua conduta particular, tanto no Ocidente como no Oriente. A importância desta
obra literária para a época pode ser notada na utilização do símbolo escada na
arte bizantina.
São
João Clímaco foi muito famoso como homem santo em toda a Palestina e Arábia.
Viveu por volta do ano 650 e morreu no Monte Sinai.
Conta-se
que ele era palestino e na adolescência ingressou cm um mosteiro no Monte
Sinai, onde passou a dedicar sua vida às orações e à meditação. Até os 35 anos
viveu desta forma, mas quando seu mestre faleceu resolveu encerrar-se cm uma
cela e viver à moda dos monges do deserto: jejuando, orando e estudando a
Bíblia.
Durante
este novo período de sua vida São João Clímaco decidiu nunca mais comer carne,
fosse ela vermelha ou branca. Também passou a sair de sua cela apenas para
participar da Eucaristia, aos domingos.
Já
com 70 anos foi eleito bispo do Monte Sinai, muito embora preferisse continuar
com sua vida isolada. Nesta época construiu hospitais para a população mais
pobre, ajudado pelo papa Gregório Magno.
Os
últimos quatro anos de sua vida foram dedicados a viver como ermitão. Neste
período de total isolamento ele escreveu Escada para o Paraíso.
segunda-feira, 11 de dezembro de 2017
Ditos dos Padres do deserto
1.
Perguntaram ao Pai Ammonas: «Qual é o caminho estreito e apertado?» (Mt 7,14).
Ele respondeu: «O caminho estreito e apertado é este, controlar seus
pensamentos e despojar-se de sua própria vontade por amor de Deus». Também isto
é o significado da sentença: «Senhor, eis que deixamos tudo e te seguimos.» (Mt
19, 27)
2.
Diziam dele que havia como que uma depressão escavada em seu peito, pelas
lágrimas que caíram de seus olhos durante toda sua vida, enquanto ele fazia seu
trabalho manual. Quando Pai Poemen viu que ele estava morto, disse chorando:
«Verdadeiramente você é abençoado, Pai Arsenius, pois você chorou por si mesmo
nesse mundo! Quem não chora por si mesmo aqui embaixo, chorará eternamente
então; por isso é impossível não chorar, voluntariamente ou quando obrigado
pelo sofrimento.» (i. e. o sofrimento derradeiro no inferno).
3.
Também era dito dele (Pai Arsenius) que nas noites de sábado, preparando-se
para a glória do domingo, ele virava-se de costas para o sol e elevava suas
mãos em oração em direção ao céu, até que o sol novamente brilhasse em sua
face. Então ele se sentava.
4.
Dizia-se do Pai Ammoes que quando ele ia à igreja, não permitia que seu
discípulo caminhasse ao seu lado mas a uma certa distância; e se esse último
viesse lhe perguntar sobre seus pensamentos, ele se afastava dele logo após
responder-lhe: «É por receio que, após tão edificantes palavras, sobrevenham
conversas irrelevantes, que eu não permito que caminhes comigo.»
5.
Foi dito de Pai Ammoes, que ele possuía cinqüenta medidas de trigo para seu uso
e as colocara para fora, ao sol. Antes que elas estivessem devidamente secas,
ele viu algo naquele lugar que lhe pareceu perigoso, então disse aos seus
empregados: «Vamo-nos embora desse lugar.» Porém, eles pareceram aflitos com
isso. Vendo seu desalento ele lhes disse: «É por causa dos pães que vocês estão
tão tristes? Na verdade, tenho visto monges fugindo, deixando suas celas
lavadas e também seus pergaminhos e eles nem fecharam as janelas, mas
deixaram-nas abertas.»
6.
Pai Abraão disse de um homem de Scete que era um escriba e não comia pão. Um
irmão veio a ele para copiar um livro. O velho homem cujo espírito estava
absorto em contemplação, escreveu, porém omitindo algumas frases e sem
pontuação. O irmão, tomando o livro e desejando pontuá-lo, notou que faltavam
palavras. Então disse ao ancião: «Pai, faltam algumas palavras.» O ancião disse
a ele: «Vá e pratique primeiro o que está escrito, depois volte e eu escreverei
o restante.»
7.
Havia nas celas um velho homem chamado Apollo. Se aparecia alguém chamando-o
para ajudar em alguma tarefa, ele ia alegremente, dizendo: «Vou trabalhar com
Cristo hoje, pela salvação de minha alma, pois esta é a recompensa que Ele dá.»
8.
Pai Doulas, discípulo de Pai Bessarion disse: «Um dia, quando estávamos
caminhando ao longo da praia, eu estava sedento e disse ao Pai Bessarion, 'Pai,
estou com sede'. Ele rezou e disse-me, 'Beba um pouco da água do mar.' A água
estava doce e eu bebi. Cheguei a pegar um pouco numa garrafa de couro, pois
tive medo de ficar sedento mais tarde. Vendo isto, o velho homem perguntou-me
porque eu estava levando água. Eu disse a ele: 'perdoe-me, é por medo de ficar
com sede mais tarde.' E o ancião disse: 'Deus está aqui, Deus está em todo
lugar'.»
9.
Um irmão perguntou ao Pai Poemen desta maneira: «Meus pensamentos me
atormentam, fazendo com que eu deixe de lado meus pecados e me preocupe com as
faltas de meus irmãos.» O ancião contou-lhe a seguinte estória sobre Pai
Dioscurus (o monge): «Na sua cela ele chorava por si mesmo, enquanto seu
discípulo se sentava eu outra cela. Quando este último veio ver o ancião
perguntou-lhe: 'Pai, por que choras?' 'Estou chorando pelos meus pecados',
respondeu-lhe o velho homem. Ao que o discípulo disse: 'Você não tem nenhum
pecado, Pai.' O ancião replicou, 'É verdade, meu filho, se eu pudesse ver meus
pecados, três ou quatro homens não seriam suficientes para chorar por eles'.»
10.
Isto é o que disse Pai Daniel, o Faranita: «Nosso Pai Arsenius nos contou sobre
um habitante de Scetis, de vida digna e fé simples; pela sua ingenuidade, ele
foi enganado e disse, 'O pão que recebemos não é verdadeiramente o Corpo de
Cristo, mas um símbolo'. Dois anciãos souberam que ele dissera aquilo,
conhecendo seu modo de vida correto acreditaram que ele não falara por malícia,
mas por simplicidade. Então, vieram a ele e disseram: '"Pai, ouvimos da
parte de alguém uma proposição contrária à fé, que disse que o pão que
recebemos não é verdadeiramente o corpo de Cristo, mas um símbolo.' O ancião
disse: 'fui eu quem disse isso.' Então os outros dois o exortaram dizendo: 'Não
mantenha essa crença, Pai, mas aquela em conformidade com o que a igreja
Católica nos deu. Acreditamos, de nossa parte, que o pão por si mesmo é o Corpo
de Cristo, como no início, Deus formou o homem à sua imagem, tomando do pó da
terra, sem que ninguém possa dizer que ele não é a imagem de Deus, mesmo que
não pareça. Do mesmo modo, com o pão do qual ele disse, 'este é Meu Corpo'.
Assim nós cremos que é verdadeiramente o Corpo de Cristo.' O ancião disse-lhes:
'Enquanto eu não for convencido pela coisa em si, não estarei completamente
convicto.' Então eles disseram: 'Vamos rezar a Deus sobre este mistério por
toda a semana e acreditamos que Deus vai nos revelar isto.' O ancião ouviu isso
com alegria e rezou nessas palavras: 'Senhor, vós sabeis que não é por malícia
que eu não creio, e, de maneira que eu não erre por ignorância, revele isto a
mim, Senhor Jesus Cristo.' Os dois homens voltaram a suas celas e rezaram
também a Deus, dizendo: 'Senhor Jesus Cristo, revele esse mistério a esse homem
de modo que ele creia e não perca sua recompensa.' Deus ouviu suas preces. Ao
final da semana eles vieram à igreja no domingo e se sentaram todos os três no
mesmo tapete, o ancião no meio. Em seguida seus olhos se abriram e quando o pão
foi colocado na mesa sagrada, aparecia-lhes uma criança pequena, sozinha. E
quando o sacerdote estendeu a mão para partir o pão, viram um anjo descer do
céu com uma espada e servir o sangue da criança no cálice. Quando o padre
partiu o pão em pedacinhos, o anjo também cortou a criança em pedaços. Quando
se aproximaram para receber os sagrados elementos o ancião sozinho recebeu um
pedaço da carne sangrenta. Vendo isto, ficou com medo e gritou: 'Senhor, eu
creio que isto é Vosso Corpo e este cálice Vosso Sangue!' Imediatamente a carne
que ele segurava em suas mãos se tornou pão, de acordo com o mistério e ele o
tomou dando graças a Deus. Em seguida os dois homens lhe disseram: 'Deus
conhece a natureza humana e sabe que o homem não pode comer carne crua e é por
isso que ele mudou Seu Corpo em pão e seu Sangue em vinho, para aqueles que o
recebem na fé.' Em seguida, deram graças a Deus pelo ancião, porque Ele não
permitiu que o mesmo perdesse a recompensa pelo seu trabalho. Então, todos três
retornaram com alegria para suas celas.»
11.
Dizia-se que Pai Helladius passou vinte anos em sua cela, sem sequer elevar os
olhos para ver o telhado da Igreja.
12.
Pai Epifânio acrescentou: «Um homem que recebe algo de outro por causa de sua
pobreza ou sua necessidade tem aí sua recompensa e porque ele se envergonha,
quando ele paga, ele o faz em segredo. Mas o oposto faz Deus; Ele recebe em
segredo, mas paga na presença dos anjos, dos arcanjos e dos justos.»
13.
Era dito do Pai Agathon que alguns monges vieram procurá-lo, tendo ouvido falar
de seu grande discernimento. Desejando ver se ele perdia a paciência
disseram-lhe: «Você não é aquele do qual dizem ser um grande fornicador e um
homem orgulhoso?» «Sim, é verdade», ele respondeu. Eles continuaram: «Você não
é aquele Agathon que está sempre dizendo bobagens?» «Sou eu.» Novamente, eles
disseram: «"Você não é Agathon, o herético?» Ao que ele replicou: «Eu não
sou um herético.» Então eles perguntaram-lhe: «Diga-nos: porque você aceitou
tudo que atiramos sobre você, mas repudiou este último insulto.» Ele replicou:
«As primeiras acusações tomei para mim, pois é bom para minha alma. Mas heresia
é separação de Deus. Vejam, eu nada tenho para ser separado de Deus.» A este
dito, eles ficaram surpresos pelo seu discernimento e retornaram, edificados.
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