segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Santo Antão

Para conhecer a vida de Santo Antão tem-se como texto fundamental a obra de Santo Atanásio. Fora dela citam-se por vezes outras fontes, mas que não dão as mesmas garantias de autenticidade. Com mais ou menos segurança se lhes atribuem algumas cartas, ditadas por ele em todo caso, pois não sabia grego. Menor segurança reveste a atribuição que de alguns apoftegmas se lhe faz tradicionalmente. Fora de dúvida estão, no entanto, as notícias contidas na carta que, por ocasião da morte de Santo Antão, escreveu ao amigo deste, São Serapião, bispo de Thmuis (ob. entre 339 e 353), como igualmente a menção do historiador Sozomeno (+ 439?) e o elogio de São Gregório Nazianzeno (+ 389/390). Valem também as menções na literatura pacomiana, ainda que por vezes adornadas com um traço bem legendário. As datas da vida de Santo Antão são inseguras. A mais certa é a de sua morte, no ano 356. Segundo a “Vida” (89,3), tinha nesta data cento e cinco anos de idade. Ainda que semelhante idade, certamente não comum, não seja de todo improvável na vida de um homem, pode, no entanto, estar excedida em alguns anos. Sendo assim, Santo Antão teria nascido entre 250 e 260. Como lugar de origem, costuma-se dar a aldeia de Coma (Kiman-el-Arus), no Egito médio, perto da antiga Heracleópolis. Seus pais eram camponeses abastados. Além de Antão, tinham uma filha. À morte dos pais, o jovem, de uns 18 a 20 anos, vendeu a propriedade, por amor ao Evangelho, distribuiu o dinheiro aos pobres, reservando apenas algo para sua irmã, menor que ele. Posteriormente distribuiu também isso, consagrando sua irmã ao estado de virgem cristã. Retirou-se ele à vida solitária, perto de sua aldeia natal, segundo o costume da época. É a etapa de sua formação monástica, de sua apaixonada dedicação à Escritura e à oração; é também o período de seus primeiros encontros com o demônio. Depois de um certo tempo, buscando uma confrontação mais direta com o demônio, vai viver num cemitério abandonado, encerrando-se um mausoléu. Ali sofre ataques violentíssimos dos demônios, mas sem se deixar amedrontar, persevera em seu propósito. Assim chega aos 35 anos. Empreende então a separação decisiva: vai para o deserto. A “Vida” assinala esse passo como algo totalmente insólito nessa época (11,1). Santo Antão cruza o Nilo e se interna na montanha, onde ocupa um fortim abandonado. Ali passou quase vinte anos (14,1), não se deixando ver por ninguém, entregue absolutamente só à prática da vida ascética. Pressionado pelos que queriam imitar sua vida, Santo Antão abandona a solidão e se converte em pai e mestre de monges. Conta cinqüenta e cinco anos, e junto ao dom da paternidade espiritual, Deus lhe concede diversos outros carismas. Em torno dele forma-se uma pequena colônia de ascetas (44). Nesta etapa conta-se também a descida de Santo Antão e de seus discípulos a Alexandria, por ocasião da perseguição de Maximino Daia (311), para confortarem os mártires de Cristo ou ter a graça de sofrerem eles próprios o martírio. Voltando à solidão, encontrou-a povoada demais para seus desejos. Fugindo então à celebridade, Santo Antão chega ao que a “Vida” chama “Montanha interior” (a “Montanha” exterior, ou Pispir (Deir-el-Mnemonn) havia sido até então sua residência, e nela permanece a colônia de seus discípulos), o Monte Colzim, perto do Mar Vermelho. Apesar de tudo, de vez em quando visita seus irmãos, e estes vão a ele. A “Vida” coloca neste tempo a maioria dos prodígios que lhe atribui. A pedido dos bispos e dos cristãos, empreende segunda vez o caminho de Alexandria, para prestar seu apoio à verdadeira fé na luta contra o arianismo. Os últimos anos de sua vida passou em companhia de dois discípulos. Vaticina sua morte, faz legado de suas pobres roupas e roga a seus acompanhantes que não revelem a ninguém o lugar de sua sepultura. Gratificado com uma última visão de Deus e de seus santos, morreu em grande paz. Ainda que a “Vida” diga explicitamente que Santo Antão não foi o primeiro anacoreta (3,3-5; 4,1-5), sustentando, por outro lado, que foi o primeiro a retirar-se ao deserto do Egito (11,1), e ainda que, além disso , seja muito difícil assinalar origens e iniciadores precisos num movimento humano tão complexo como o monástico, contudo, a figura se sobressai em forma tão extraordinária, que com razão é ele considerado pai da vida monástica e, especialmente, como modelo perfeito da vida solitária. Sua fama já em vida, acrescentada depois de sua morte sobretudo através das páginas da “Vida”, é inteiramente justa. Ao celebrar sua festa, de acordo com muito antigas tradições, a 17 de janeiro, os cristãos reconhecemos o poder de Deus entre os homens, a força de sua sabedoria ao deixar-nos um exemplo em homem tão humilde, o dom de seu Espírito multiforme com a discrição e o alento fraterno do grande ancião.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Os Religiosos de clausura

Ao ver uma freira ou um frade cuidando dos pobres e doentes, o povo percebe de imediato a utilidade de sua ação. Porém, em relação aos irmãos de clausura, o grande bem que fazem não é reconhecido tão facilmente. Muitos católicos não fazem a menor ideia do sentido dessa vocação, nem imaginam as numerosas graças que os contemplativos derramam sobre o mundo.
O que fazem os religiosos de clausura?
Os contemplativos dão um testemunho poderoso e silencioso, que só os anjos vêem.
Meditam sobre as coisas de Deus;oram em conjunto em diversas horas do dia, conforme a rotina da comunidade;trabalham na limpeza e manutenção do mosteiro;fazem penitência, conforme a disponibilidade de cada um;realizam trabalhos manuais para obter verbas e manter o mosteiro;estudam.
Perguntinha pra você: a sua mente está voltada para Deus em todas as suas atividades, e você reza tanto quanto gostaria? Pratica atos de mortificação (renúncias, sacrifícios) com freqüência?
Pois é…
Os irmãos e irmãs de clausura nos compensam naquilo que falta a muitos de nós: oração e penitência. Eles adoram, meditam, se penitenciam e oram para sustentar aqueles que estão no mundo. A solidão permite uma vida de oração mais intensa, que é fonte de graças e santidade para toda a Igreja.

segunda-feira, 19 de março de 2018

São Charbel Makhlouf, Eremita

São Charbel Makhluf foi um eremita libanês do século XIX, elevado à honra dos altares em 1965 e canonizado no ano de 1977, pelo Papa Paulo VI. O nome Charbel, de origem sírio-libanesa, significa “a história de Deus” e, em português, pela adaptação latina, também pode ser substituído por Sarbélio. Mesmo levando uma vida escondida, este santo monge ficou famoso por seu corpo incorrupto e por seus milagres extraordinários. Pouco depois de sua morte, em 1898, se cumpriria a profecia de seu superior, que, ao assinar a sua breve ata de sepultamento, previu que mais se escreveria a respeito dele depois de morto do que vivo.
De fato, sepultado em uma vala comum, como todos os maronitas, de seu túmulo começaram a sair luzes extraordinárias, que impressionaram quem vivia próximo ao cemitério. Aberta a sua cova, todos ficaram maravilhados com o seu corpo, que não só ficara intacto, como começava a transpirar sangue e água – à semelhança de Nosso Senhor, de cujo lado aberto na Cruz também jorraram sangue e água. Por 70 anos, o túmulo de São Charbel ficou completamente encharcado, exalando um odor muito agradável e confirmando a sua santidade.
Nascido Youssef Antoun Makhlouf, em 1828, São Charbel era o quinto de seus irmãos. Órfão desde criança – o pai morreu servindo aos soldados otomanos –, o pequeno José foi criado por um tio. Mandado para o campo, para cuidar do rebanho da família, o menino passava o tempo em uma gruta, na qual se recolhia para rezar. O lugar, chamado ironicamente por seus colegas de “a gruta do santo”, acabou por cumprir profeticamente o seu destino. Com 23 anos, José enfrenta a resistência da família – de sua mãe, que lhe era muito apegada, e de seu tio, que necessitava de braços para o campo – e sai escondido de casa, decidido e disposto a fazer-se monge.
No mosteiro, em seu primeiro ano de noviciado, o rapaz vê-se em uma situação difícil. À época, o Líbano trabalhava arduamente na exportação de seda e os monges do lugar em que ele estava tinham muito contato com os camponeses da região, pois os ajudavam na produção da fibra. Trabalhando em sua ocupação, o irmão Charbel atrai o olhar de uma moça, que o tenta seduzir, jogando nele alguns bichos-da-seda. Ignorando a jovem, ele se retira dali e, na mesma noite, foge do mosteiro, que estava sendo ocasião de perigo para a sua alma.
Já no mosteiro de São Maron de Annaya, o irmão Charbel começa o seu segundo ano de noviciado, quando sua mãe, Brígida, decide visitá-lo. Em uma atitude que pode parecer dura, Charbel escolhe não ver sua mãe, limitando-se a conversar com ela atrás da porta. Instado para mostrar-lhe o rosto, ele responde, resolutamente: “Nós nos veremos no Céu”. Para entender o ato de São Charbel, é preciso lembrar a sua opção radical pela vida monástica reclusa. Ele estava convencido de que um monge que mantinha contato com seus parentes depois da profissão de seus votos deveria recomeçar o noviciado.
Uma lição valiosa que esse acontecimento ensina é a do amor verdadeiro aos pais, que tem como finalidade a sua salvação eterna. São Máximo, o Confessor, ensina que existem cinco tipos de amor, sendo três “passionais”, um “indiferente” e outro “louvável”: os três primeiros são aquele buscado por puro prazer, outro baseado no “ter” e outro ainda, na vaidade; o amor neutro é aquele natural, “como os pais que amam os filhos e vice-versa”; o quinto, por fim, é o amor por Deus, que deve enformar todas as virtudes e também afeições naturais, inclusive aos pais e filhos. Porque, se é verdade que o amor “por natureza” é “indiferente”, pode também desembocar em um apego desordenado. O amor verdadeiro, ao contrário, deseja o Céu um para o outro, assim como São Charbel desejou para sua mãe e assim como Santa Teresinha do Menino Jesus, que, tendo aprendido sobre as belezas do Céu, pediu para Deus que sua mãe morresse logo, para que ela se encontrasse com Ele.
De fato, o desapego dos pais e a promessa de recompensa de Charbel à sua mãe – “Nós nos veremos no Céu” – são realidades que ecoam do próprio Evangelho: “Quem ama pai ou mãe mais do que a mim, não é digno de mim”; “Todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou campos, por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá como herança a vida eterna”.
Na vida em comunidade, Charbel tornou-se um notável modelo de submissão e abnegação da própria vontade. Quando o superior pedia a seus confrades uma obediência severa, os seus companheiros retrucavam, jocosamente: “Pensa o senhor, por acaso, que sou o irmão Charbel?”
Por decisão do superior e de seus confrades, foi admitido às sagradas Ordens e, após cumprir os estudos, recebeu a ordenação presbiteral em 1859.
Começa, então, um novo capítulo de sua vida: o agora padre Charbel que se preparava com piedade, devoção e muito zelo para a celebração da Santa Missa. Ele, que era um homem extremamente despojado, tinha peças de vestuário e sapatos que usava especificamente para encontrar com Nosso Senhor no culto eucarístico. “Charbel celebrava o Santo Sacrifício com a máxima dignidade e com uma fé tão viva, que, com frequência, durante a Consagração, as lágrimas corriam-lhe dos olhos escuros e profundos, os quais eram como duas janelas abertas para o Céu. E, na contemplação, ficava de tal modo absorto que não prestava atenção alguma a eventuais ruídos ou rumores”.
Certa vez, durante a sagrada liturgia, um acólito viu que o santo chorava durante a consagração e que algumas lágrimas caíam no corporal. À hora da purificação dos objetos sagrados, aquele corporal molhado foi causa de grande inquietação para Charbel, que pensou que havia deixado cair o preciosíssimo sangue de Cristo. Preocupado, o padre apresentou o corporal ao seu superior, pedindo perdão por aquilo que pensara ser um ato de negligência sua.
Durante muitos anos, o padre Charbel permaneceu no seio da comunidade monástica, mas, em seu coração, não havia morrido o desejo de tornar-se eremita, vivendo completamente afastado do mundo e dedicando-se inteiramente a Deus. O seu anseio, no entanto, era sempre negado por seus superiores.
Até que, um dia, tendo voltado tarde de seu trabalho no campo, ele pediu ao irmão dispenseiro – que guarda os mantimentos do mosteiro e os distribui aos confrades – que pusesse óleo em sua lamparina, a fim de rezar o Ofício em sua cela. O monge, reprovando Charbel por não chegar mais cedo, deixou-o, por penitência, sem óleo. O monge, então, retirou-se obedientemente para o seu quarto. Um confrade mais jovem se ofereceu para ajudar São Charbel, mas, por brincadeira, colocou água em sua lamparina, ao invés de óleo. Milagrosamente, todavia, a lamparina se acendeu e Charbel pôde rezar o seu Ofício.
Vendo esse milagre, o seu superior se convenceu de que o Senhor realmente o chamava o para a vida eremítica. Permaneceu, então, recolhido no eremitério de São Pedro e São Paulo, até o fim de sua vida. Foi durante este período, nos intervalos em que trabalhava nas aldeias vizinhas, que se espalhou na região a sua fama de taumaturgo.
Impressionante era a sua concentração nos momentos de oração, que pode ser ilustrada com a história seguinte:
“Num dia de tempestade, um raio derrubou parte da ala meridional da ermida, deitou por terra uma parede da vinha e queimou, na capela, as toalhas do altar, enquanto o santo monge ali se encontrava, em oração. Dois ermitães acorreram ao local, e o viram na mais apaziguante tranquilidade.
— Padre Charbel, por que não se moveu para apagar o fogo?
— Caro irmão, como poderia fazê-lo? Pois logo depois de atear-se, o fogo se extinguiu…
De fato, como o incêndio fora rapidíssimo, ele julgara mais importante continuar sua oração, sem se perturbar.” 
No dia 16 de dezembro, enquanto celebrava o Santo Sacrifício, o padre Charbel começou a passar mal. Tendo agonizado por oito dias, este santo monge entregou a sua vida a Deus oito dias depois, exatamente na vigília de Natal.
A sua vida extraordinária nos incita, sobretudo, à renúncia do mundo e ao cultivo da vida espiritual, baseada principalmente na devoção à Santíssima Virgem e à Santíssima Eucaristia. A São Charbel Makhlouf se aplicam com perfeição as palavras do salmista: “O justo crescerá como a palmeira, como o cedro do Líbano se elevará.”

domingo, 7 de janeiro de 2018

Os 30 graus da Escada de São João Clímaco

1º degrau: a renúncia à vida do mundo;
2º degrau: renúncia aos afetos terrenos;
3º degrau: fuga do mundo;
4º degrau: bem-aventurada e sempre louvável obediência;
5º degrau: verdadeira e sincera penitência;
6º degrau: pensamento da morte e dom de lágrimas;
7º degrau: a tristeza que produz alegria;
8º degrau: a doçura que triunfa a cólera;
9º degrau: esquecimento das injúrias;
10º degrau: fugir da maledicência, que seca a virtude da caridade;
11º degrau: amor ao silêncio, porque falar muito leva à vanglória;
12º degrau: fugir da mentira, que é ato de hipocrisia;
13º degrau: combater o enfado e a preguiça, uma vez que esta última destrói por si só todas as virtudes;
14º degrau: praticar a temperança, porque comer guloseimas é hipocrisia do estômago;
15º degrau: amor à castidade;
16º degrau: viver a pobreza, oposta à avareza;
17º degrau: não deixar o coração endurecer (isso causa a morte da alma);
18º degrau: sono e do canto público dos salmos;
19º degrau: fazer vigílias;
20º degrau: timidez pueril;
21º degrau: não praticar a vanglória;
22º degrau: fugir do orgulho;
23º degrau: fugir da blasfêmia;
24º degrau: doçura da alma, simplicidade;
25º degrau: humildade;
26º degrau: discernimento nos pensamentos;
27º degrau: vida interior e paz de alma;
28º degrau: oração, que é santa e fecunda fonte de virtudes;
29º degrau: recolhimento do espírito e repouso do corpo que lhe são necessários;
30º degrau: fé, esperança e caridade.