quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O Testamento de São Francisco de Assis


No começo do movimento franciscano, quando São Francisco ainda vivia entre os primeiros irmãos, mesmo tendo já escrito uma Regra de vida para seus confrades e para a nova comunidade religiosa que surgia na Igreja, ele escreveu também um testamento a fim de guiar, orientar e conduzir o modo de ser e a espiritualidade dos “Irmãos Menores”, na vida em fraternidade, no meio às demais pessoas na sociedade e na Igreja, pois, na sua visão, temia que a nova comunidade desviasse da rota, de seu ideal proposto.


O Testamento, que foi pensado e refletido por vários meses por São Francisco e seu pequeno grupo de frades, não deve ser entendido como uma única manifestação mais ardente dos desejos do Santo para sua comunidade, pois, como ele mesmo diz no versículo 34, “... e não digam os irmãos: esta é uma outra Regra, porque esta é uma recordação, uma admoestação, uma exortação, (...), para que observemos mais catolicamente a Regra que prometemos ao Senhor”, seria, penso, um complemento independente da Regra já aprovada, mostrando com isso o verdadeiro valor dos ideais originais, a vivência mais perfeita da Regra e dos Santos Evangelhos, e para serem fiéis seguidores de Cristo, na Igreja e na sociedade, garantindo, assim, no futuro, a sobrevivência do seu ideal.

Testamento

1. Foi assim que o Senhor concedeu a mim, Frei Francisco, iniciar uma vida de penitência: como estivesse em pecado, parecia-me deveras insuportável olhar para leprosos.
2. E o Senhor mesmo me conduziu entre eles e eu tive misericórdia com eles.
3. E enquanto me retirava deles, justamente o que antes me parecia amargo se me converteu em doçura da alma e do corpo. E depois disto demorei só bem pouco e abandonei o mundo.
4. E o Senhor me deu tanta fé nas igrejas que com simplicidade orava e dizia:
5. ‘Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo aqui e em todas as vossas igrejas que estão no mundo inteiro, e vos bendizemos porque por vossa santa cruz remistes o mundo’.
6. E o Senhor me deu e ainda me dá tanta fé nos sacerdotes que vivem segundo a forma da santa Igreja Romana, por causa de suas ordens, que, mesmo que me perseguissem, quero recorrer a eles.
7. E se tivesse tanta sabedoria quanta teve Salomão e encontrasse míseros sacerdotes deste mundo – nas paróquias em que eles moram não quero pregar contra a vontade deles.
8 E hei de respeitar, amar e honrar a eles e a todos os outros como a meus senhores.
9. Nem quero olhar para o pecado deles porque neles reconheço o Filho de Deus e eles são os meus senhores.
10. E procedo assim porque do mesmo altíssimo Filho de Deus nada enxergo corporalmente neste mundo senão o seu santíssimo corpo e sangue, que eles consagram e somente eles administram aos outros.
11. E quero que estes santíssimos mistérios sejam honrados e venerados acima de tudo em lugares preciosos.
12. E onde quer que encontre em lugares inconvenientes os seus santíssimos nomes e palavras escritos, quero recolhê-los e peço que sejam recolhidos e guardados em lugar decente.
13. E devemos honrar e respeitar todos os teólogos e os que nos ministram as santíssimas palavras divinas como a quem nos ministra espírito e vida.
14. E depois que o Senhor me deu irmãos ninguém me mostrou o que eu deveria fazer, mas o Altíssimo mesmo me revelou que eu devia viver segundo a forma do santo Evangelho.
15. E eu o fiz escrever com poucas palavras e de modo simples e o Senhor Papa confirmou.
16. E os que vinham para abraçar este gênero de vida distribuíam aos pobres o que acaso possuíam. E eles se contentavam com uma só túnica remendada por dentro e por fora, com um cíngulo e as calças.
17. E mais não queríamos ter.
18. Nós clérigos recitávamos o oficio divino como os demais clérigos; os leigos diziam os pai-nossos. E gostávamos muito de estar nas igrejas.
19. Éramos iletrados e nos sujeitávamos a todos.
E eu trabalhava com as minhas mãos e quero trabalhar.
20. E quero firmemente que todos os outros irmãos se ocupem num trabalho honesto.
21. E os que não souberem trabalhar o aprendam, não por interesse de receber o salário do trabalho, mas por causa do bom exemplo e para afastar a ociosidade.
22. E se acaso não nos pagarem pelo trabalho vamos recorrer à mesa do Senhor e pedir esmola de porta em porta.
23. Como saudação, revelou-me o Senhor que disséssemos: ‘O Senhor te dê a paz’.
24. Evitem os irmãos aceitar, sob qualquer pretexto, igrejas, modestas habitações e tudo o que for construído para eles se não estiver conforme com a santa pobreza que prometemos pela Regra, demorando nelas sempre como forasteiros e peregrinos.
25. Mando severamente sob obediência a todos os irmãos, onde quer que estejam, que não se atrevam a pedir à Cúria Romana algum rescrito, nem por si nem por pessoa intermediária, em favor duma igreja ou de outro lugar qualquer, nem sob o pretexto de pregação, nem por causa de perseguição corporal.
26. Ao contrário, sempre que não forem aceitos em alguma parte, fujam para outra terra para ali fazer penitência com a bênção de Deus.
27. E quero firmemente obedecer ao ministro geral desta fraternidade e ao guardião que lhe aprouver dar-me.
28. E de tal modo quero estar como prisioneiro em suas mãos que fora da obediência a ele ou contra sua vontade, eu não possa ir a parte alguma nem empreender nada, porque ele é o meu senhor.
29. E embora eu seja simples e enfermo quero contudo ter sempre junto de mim um clérigo que reze comigo o ofício segundo manda a Regra.
30. E todos os outros irmãos estejam obrigados a obedecer de igual modo aos seus guardiães e a rezar o ofício segundo manda a Regra.
31. E se acaso houver quem não reze o ofício segundo o preceito da Regra e introduzir um modo diferente ou não seja católico, todos os irmãos, onde quer que estiverem e acharem um deles, são obrigados sob obediência a levá-lo ao custódio mais próximo do lugar onde o tiverem encontrado.
32. E o custódio esteja gravemente obrigado sob obediência a mantê-lo sob guarda severa como prisioneiro, dia e noite, de modo que não possa escapar de suas mãos, até que o entregue pessoalmente às mãos de seu ministro.
33. Também o ministro esteja gravemente obrigado sob obediência a enviá-lo por tais irmãos que o guardem dia e noite como um preso, até que o apresentem ao senhor de Óstia, que é o senhor, protetor e corretor de toda a fraternidade.
34. E não digam os irmãos: ‘Isto é uma outra Regra’, porque isto é uma recordação, uma admoestação, uma exortação e meu testamento, que eu, Frei Francisco, o menor de todos, deixo para vós, meus irmãos benditos a fim de que possamos observar mais catolicamente a Regra que prometemos ao Senhor.
35. E o ministro geral e todos os demais ministros e custódios estejam obrigados sob obediência a nada acrescentar a estas palavras nem tirar coisa alguma.
36. E tenham sempre consigo este escrito, junto à Regra.
37. E em todos os capítulos que fizerem, leiam também estas palavras quando lerem a Regra.
38. E ordeno severamente sob obediência a todos os irmãos, clérigos e leigos, que não façam glosas à Regra nem a estas palavras dizendo:
39. ‘Assim é que devem ser entendidas’. Mas, como o Senhor me concedeu dizer e escrever de modo simples e claro a Regra e estas palavras, assim as entendais, com simplicidade e sem comentário e observai-as com santo fervor até o fim.
40. E todo aquele que as observar seja no céu cumulado com a bênção do altíssimo Pai, e seja cumulado na terra com a bênção de seu dileto Filho em unidade com o Espírito Santo Paráclito, com todas as virtudes do céu e todos os santos.
41. E eu, Frei Francisco, o menor de vossos servos, vos confirmo, quanto posso, interior e exteriormente, esta santíssima bênção. Amém.

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